Escândalos sexuais aumentam descontentamento de italianas

04/02/2011

A insatisfação feminina está pressionando cada vez mais contra a tradicional e bizantina política italiana, de dominação masculina. Cerca de 73,5 mil italianos assinaram uma petição no site do jornal esquerdista L’Unita, pedindo que as mulheres italianas digam “Basta!” a Berlusconi. Uma manifestação em Milão, no sábado, atraiu milhares de manifestantes, e uma manifestação nacional promovida por mulheres está agendada para o dia 13 de fevereiro.

O primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, disse que está rindo de seu mais recente escândalo sexual, em que os promotores estão investigando se ele compensou uma série de jovens atraentes por sexo, incluindo uma adolescente de 17 anos apelidada de “Ruby Rouba-corações”.


Mas conforme esse escândalo aparentemente intratável se desenvolve, enchendo a mídia com imagens de dezenas de jovens mulheres em sua órbita, Berlusconi percebe que pela primeira vez em sua longa carreira um grupo italiano não está rindo com ele: as mulheres.

A insatisfação feminina está pressionando cada vez mais contra a tradicional e bizantina política italiana, de dominação masculina. Cerca de 73,5 mil italianos assinaram uma petição no site do jornal esquerdista L’Unita, pedindo que as mulheres italianas digam “Basta!” a Berlusconi. Uma manifestação em Milão, no sábado, atraiu milhares de manifestantes, e uma manifestação nacional promovida por mulheres está agendada para o dia 13 de fevereiro.

“Existe uma outra Itália”, proclamou Emma Marcegaglia, primeira mulher a liderar a Confindustria, associação de grandes indústrias do país, e uma das poucas mulheres italianas com peso político significativo. Hoje, a raiva é crescente entre aquelas que dizem que simplesmente não se veem nas imagens dominantes das mulheres na Itália: as chamadas “velinas”, mulheres de corpo malhado que desde os anos 80 têm tomado conta das emissoras de TV de Berlusconi.

O mais recente escândalo têm ressaltado a frustração sobre a gama de papéis aparentemente estreita disponíveis para as mulheres de hoje no país. “Na Itália, as mulheres estão sofrendo porque elas se veem presas entre duas imagens, a da dona de casa feliz ou a da velina”, disse Danda Santini, editora-chefe da edição italiana da revista Elle. “Nada mais é representado na televisão”.

‘Vender a alma’

A Itália fica significativamente atrás dos outros países da União Europeia em indicadores de igualdade de emprego para as mulheres ou da sua colocação em posições de liderança, e as mulheres indignadas dizem que o mais recente escândalo destaca uma mensagem preocupante: o caminho para uma mulher subir na vida na Itália é o de vender sua alma, ou corpo, para homens poderosos.

“Eu não sinto que esse seja um modelo que espelha a mim de forma alguma”, disse Martina Priori, 25 anos, vendedora de uma loja de calçados no centro de Roma. “O mundo real é diferente”.

Crescer no trabalho, no entanto, é difícil. Embora mais mulheres que homens italianos tenham diplomas universitários, apenas 46% das mulheres estão empregadas, em comparação com uma média de 59% nos 27 países membros da UE.

Ao mesmo tempo, a Itália tem uma das menores taxas de natalidade na União Europeia, de 1,4 por mulher, e gasta apenas 1,1% do seu produto interno bruto em assistência a crianças e incentivos à família, de acordo com a Eurostat, agência de estatísticas da união. A França, em contrapartida, gasta 2,4% do seu PIB em incentivos à família e sua taxa de natalidade é de 2,1 por mulher. De acordo com o Index de Divisão de Gêneros do Fórum Econômico Mundial de 2010, a Itália ocupa a 74ª posição entre 134 países – atrás dela na UE, estão apenas Hungria, Malta e Chipre.

De acordo com algumas opiniões, as mulheres italianas chegaram longe em um país cuja maioria das estruturas de poder já estabelecido – a Igreja Católica Romana e o crime organizado – permanecem masculinas.

Pela primeira vez, as mulheres agora lideram a associação dos industrialistas da Itália e o maior sindicato de trabalho. “Eles levaram quase 100 anos para indicar uma mulher, e escolheram o pior momento econômico para fazê-lo”, disse recentemente Marcegaglia sobre si mesma. Mas no seu conjunto, em um país conhecido pela falta de meritocracia, as mulheres italianas enfrentam uma batalha árdua.

Décadas depois de um movimento feminista ajudar a trazer mudanças significativas, incluindo a legalização do aborto e do divórcio, alguns argumentam que as mulheres italianas estão pior hoje do que no passado. “É como se nós tivéssemos retrocedido desde os anos 70”, disse Antonella Giacobbe, 55 anos, durante uma reunião realizada recentemente em Roma pelo Filomena, um grupo de defesa das mulheres.

Família

As poucas mulheres que chegaram ao topo do mundo corporativo na Itália muitas vezes vêm de famílias poderosas. Marcegaglia é a herdeira de uma fortuna de aço. Marina Berlusconi, presidente da Fininvest e do grupo editorial Mondadori, é filha de Silvio Berlusconi.

Na Itália, um país centrado na família, espera-se que as mulheres sejam donas de casa e elas são muitas vezes discriminadas no mercado de trabalho, dizem especialistas, porque os empregadores acreditam que irão colocar a família acima dos empregos. “Na Itália, você trabalha ou tem filhos, porque a legislação até agora não colocou as mulheres em uma condição onde eles possam trabalhar e ter filhos”, disse Alisa Del Re, que ensina sobre políticas de gênero na Universidade de Pádua.

Em um país onde os avós cuidam das crianças, menos de 10% das crianças têm acesso a creches pré-escolares – e 27% das mulheres deixaram de trabalhar depois de ter filhos, de acordo com um estudo realizado por Alessandra Casarico e Paola Profeta, professoras da Universidade Bocconi em Milan. “Parece que tudo funciona contra as mulheres: família, sociedade e até mesmo como o trabalho é organizado”, e muitas vezes a mulher desiste, disse Caterina Soffici, autora de um livro sobre o hiato de gênero na Itália.

No entanto, o Banco da Itália prevê que se o emprego feminino aumentasse 60%, o PIB aumentaria 7%. “Em um país onde o crescimento está em 1%, isso é algo a se pensar”, disse Anna Maria Tarantola vice-diretora geral do banco.

A questão central hoje em debate é o quanto Berlusconi tem sido responsável por moldar a imagem da mulher nos seus 30 anos como chefe do maior império de radiodifusão privado do país.

As meninas antes sonhavam em aparecer na televisão, agora elas “pensam que ser uma acompanhante é a maneira mais rápida de se tornar alguém, porque terão acesso a homens importantes e políticos bem sucedidos”, disse Cândida Morvillo, editora-chefe da revista de fofocas Novella 2000 e autora do livro de La Repubblica Delle Veline (A República das Velinas).

Berlusconi

Ao longo dos anos, Berlusconi borrou a divisão entre o show business e a política, escolhendo mulheres apresentadoras de programas de sua emissora como candidatas aos parlamentos italiano e europeu.

Uma ex-showgirl, Mara Carfagna, é agora ministra da igualdade de oportunidades – e ganhou elogios até mesmo dos críticos pela promoção dos direitos dos homossexuais. Ela é uma das cinco mulheres no governo Berlusconi, de 23 membros.

Muitos acreditam que a mudança virá da mídia, em vez do Parlamento. Loredana Lipperini, jornalista e escritora, disse que espera que as jovens mulheres italianas sejam moldadas pela internet em vez da cultura qu figura na televisão. “Isso me conforta, porque a maioria dos jovens estão recebendo ou receberão suas principais informações pela internet”, disse ela.

De sua parte, Susanna Camusso, a primeira mulher a ser secretária-geral do CGIL, o maior sindicato comercial da Itália, previu que a era Berlusconi acabaria por ser vista “como um acidente na história e não um espelho do país”.

Fonte

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Sobre nemge

O NEMGE é órgão da Pró-Reitoria de Pesquisa da Universidade de São Paulo. Visa aprofundar, através de pesquisa empírica e estudos teóricos, as articulações entre gênero, etnia e classe social, especialmente no Brasil e na América Latina.
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