O infanticídio de meninas na China

Na China, onde a lei de planejamento familiar – ou seja, a do filho único – ainda é ignorada nas regiões mais pobres, infanticídio é uma palavra pouco ouvida. No entanto, a jornalista e escritora Xinran ousa não só denunciar o crime – algo comum em regiões remotas – como dar os números das meninas que, por milagre, acabaram adotadas por famílias ocidentais: 120 mil até o fim de 2007.

A maior parte dos chineses, esclarece Xinran em seu novo livro, Mensagem de Uma Mãe Chinesa Desconhecida, acha inacreditáveis os números da adoção. Por que, afinal, a China tem tantas meninas órfãs? Para responder à pergunta, a jornalista de 53 anos, hoje morando em Londres, concedeu uma entrevista ao Estado por telefone.

Para ela, os ocidentais tendem a acreditar que a culpa é da política do filho único, mas Xinran tem outras explicações. Ela começou a coletar dados sobre o assunto quando era apresentadora de um programa na rádio chinesa, Palavras na Brisa Noturna, em 1989. Nele, Xinran falava de pessoas comuns, mas não com a liberdade com a qual aborda hoje temas espinhosos como o assassinato de bebês do sexo feminino. Meninas recém-nascidas são afogadas na própria água da bacia usada para fazer o parto ou, se escapam com vida, deixadas nas portas dos orfanatos – que o governo monta de forma improvisada nas grandes cidades, hoje invadidas pela massa de trabalhadores rurais atraídos pela ilusão de melhores salários.

Segundo Xinran, há três razões para uma mãe chinesa abandonar seu bebê de sexo feminino: nas culturas rurais, onde isso acontece há séculos, o sistema de distribuição de terras favorece os homens pela vantagem física; a população cresceu de maneira assustadora (de 700 milhões em 1966 para 1,3 bilhão de habitantes); por fim, a política do filho único nunca foi implementada de fato, especialmente nas regiões pobres da China. Em 1989, a jornalista visitou um vilarejo miserável ao norte do Rio Amarelo e uma mulher de pouco mais de 30 anos perguntou à então repórter se ela já havia “resolvido” uma bebezinha – ou seja, se havia se livrado de um recém-nascido do sexo feminino. Xinran, confusa, não entendeu a pergunta, mas foi obrigada a ouvir a resposta: a família do marido jamais a perdoaria se ela não soubesse “resolver” meninas. Seria espancada e sua ração alimentar reduzida ao mínimo.

Isso não foi o pior que testemunhou em Yimeng, na província de Shandong. Ao entrar na casa de uma família camponesa, ouviu um gemido de dor vindo do quarto, mas não o choro do bebê, que veio logo depois num balde de água suja com um pé saindo dele. O pezinho tremeu, Xinran aproximou-se do balde, mas era tarde. Ao lado dela, dois policiais permaneceram inertes. “Resolver uma bebezinha não tem nada de mais por aqui”, explicou uma das moradoras da casa.

“Meninas são sufocadas ou jogadas nos córregos da China há séculos, particularmente por pessoas mais simples, que acreditam dever aos ancestrais um primogênito ou ainda ouvem as más previsões de adivinhos”, diz Xinran, para quem até mesmo os jovens chineses dos centros urbanos ignoram os mais elementares métodos anticoncepcionais pela educação moralista que recebem. Até Xinran sofreu na pele o preconceito quando adotou – e teve de devolver – uma menina chinesa há 21 anos, que nunca mais viu. “Penso nela até hoje”, diz a escritora, que criou a instituição The Mother”s Bridge of Love para ajudar famílias estrangeiras que adotam chinesinhas a saber mais sobre sua família biológica.

Fonte

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Sobre nemge

O NEMGE é órgão da Pró-Reitoria de Pesquisa da Universidade de São Paulo. Visa aprofundar, através de pesquisa empírica e estudos teóricos, as articulações entre gênero, etnia e classe social, especialmente no Brasil e na América Latina.
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