Holanda: 40 anos de clínica de aborto e ainda há protestos

28/02/2011

Manifestantes anti-aborto faziam protesto na rua com fotos sangrentas de fetos. Os defensores do aborto gritavam: “Dona da própria barriga!” Há 40 anos a primeira clínica de aborto na Holanda despertava fortes emoções. E até hoje o aborto é ponto de discussão, na vida privada e na política.

27 de fevereiro de 1971. A primeira paciente recebe um ‘abortus provocatus’ na Mildredhuis, na cidade de Arnhem. Anos de discussões ferrenhas tinham se passado; anos de discussões ferrenhas ainda viriam. “Nós, médicos, éramos confrontados com a pergunta: ‘doutor, o senhor poderia nos ajudar?’ São estas pessoas vulneráveis que nós atendemos, de uma maneira decente e segura”, conta Paul Bekkering, um dos fundadores da Mildredhuis. “Não subestime os dramas dos abortos ilegais, com centenas de complicações. A meu ver, é um crime obrigar as mulheres a buscar a ilegalidade”, diz o clínico geral, aposentado desde 1997. Tabu No final dos anos 60, a sexualidade era tabu para muitos holandeses. Mas as mudanças estavam no ar. A pílula era novidade. Na mídia e entre os médicos, discutia-se muito sobre anticoncepcionais e o aborto legal. Um membro do Conselho de Medicina escreveu em 1966 que o ‘abortus provocatus’ não poderia ser proibido por indicação médica. E a Organização Mundial da Saúde declarou que a saúde era em parte determinada pelo bem estar psíquico e social. O jovem médico Bekkering tirou daí suas conclusões. “A realidade é que as pessoas têm um grande problema. E esta decisão é delas, não é minha, não é de comissões nem de um juiz.”

Slogan
Com o slogan “Dona da própria barriga”, o movimento pró-aborto foi à luta. Durante uma discussão sobre o aborto, Bekkering se posicionou a favor, e uma coisa levou à outra. Junto com outros médicos, ele começou a fazer planos para uma clínica de aborto.

Um canal de televisão progressivo coletou dinheiro para a criação da clínica e em fevereiro de 1971 foi inaugurada a Mildredhuis em Arnhem, a primeira clínica de aborto da Holanda.

“Nós fizemos uma enquete entre clínicos gerais e 80% achavam que o aborto tinha que ser uma possibilidade e que uma clínica especial para isso deveria ser criada. Portanto, tínhamos bastante apoio”, lembra Bekkering.

No primeiro ano, 1500 mulheres foram atendidas em Arnhem. Na época, a maioria vinha do exterior, às vezes de muito longe. Naquele mesmo ano, outras clínicas foram abertas na Holanda.

Lei do aborto
Só dez anos mais tarde veio a Lei do Aborto na Holanda, que acatou o que já era prática nas clínicas de aborto.

“Todas as mulheres passam primeiro por uma longa entrevista, e se preciso por uma segunda conversa ou uma indicação para atendimento pelo serviço social. Só quando realmente analisaram bem sua decisão é que recebem atendimento. Mas para muitas mulheres isso já aconteceu no momento em que procuram o seu médico ou a clínica. Na maioria das vezes, há uma série de fatores para esta decisão, mas nós tentamos checar se a decisão foi bem pensada”, diz Melanie van Heijst, médica que há dez anos trabalha numa clínica de aborto em Eindhoven.

Todos os meses há manifestantes em frente às clínicas de aborto de Eindhoven e de outras cidades. Eles acreditam que somente Deus pode decidir sobre vida e morte. “O aborto é um assassinato.” Mas com o aumento da secularização, a influência destes grupos diminuiu.

As clínicas de aborto pertencem à infraestrutura médica na Holanda. Para pacientes holandesas, o procedimento tem cobertura dos seguros de saúde. Mas até hoje há discussões políticas sobre o tema.

Contracepção
Na rica Holanda, situações de emergência não deveriam mais existir. Melanie van Heijst escuta isso com frequência. “Eu me ponho inteiramente do lado deste grande grupo anônimo”, diz. O trabalho dela não é apenas o de fazer o procedimento do aborto, ela também dá conselhos sobre anticoncepcionais. E ainda tem mais um objetivo: “Como posso ajudar esta pessoa, nesta fase de sua existência, a pôr sua vida novamente nos trilhos, da melhor maneira possível, com esta decisão?”

As cifras de aborto na Holanda há anos são extremamente baixas, comparadas às de outros países. Isso se dá graças à informação aberta sobre sexualidade e contracepção, conclui Paul Bekkering. Mas as clínicas de aborto continuam sendo necessárias, segundo ele, pois sempre pode acontecer de algo dar errado e a ilegalidade não é a solução.

Grupos de protesto como o “Schreeuw om leven” (Grito pela vida) continuam sendo fundamentalmente contra.

Fonte

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Sobre nemge

O NEMGE é órgão da Pró-Reitoria de Pesquisa da Universidade de São Paulo. Visa aprofundar, através de pesquisa empírica e estudos teóricos, as articulações entre gênero, etnia e classe social, especialmente no Brasil e na América Latina.
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