Mais Mulheres no Poder no Brasil: ventos novos ou brisa passageira?

O país vive um momento inédito com a eleição da presidenta Dilma Rousseff e a nomeação de 9 ministras para seu governo. Nunca o Brasil teve tantas mulheres nos postos mais altos do Executivo.

– São “ventos novos” ou apenas uma “brisa passageira” trazida pela eleição da presidenta Dilma?
– Haverá repercussões na cultura política de poder masculino dos partidos?
– Os debates sobre a participação política das mulheres terão mais importância na reforma política?

A Agência de Notícias Patrícia Galvão ouviu pesquisadores, parlamentares e ativistas feministas para a análise deste tema, entrevistando Claudio Couto (cientista político e professor da FGV/SP), Luiza Erundina (deputada federal), Renato Janine Ribeiro (filósofo e professor da USP), Silvia Camurça (socióloga que integra a coordenação da Articulação de Mulheres Brasileiras) e Tatau Godinho (socióloga que integra a coordenação da Marcha Mundial das Mulheres).

[Clique nos links e leia o depoimento inteiro]

 

Luiza Erundina, deputada federal (PSB/SP)

Mesmo os partidos mais progressistas, mais populares e de esquerda não têm uma política de incorporação de mulheres

“Os partidos políticos são mais resistentes à emancipação política das mulheres do que quaisquer outras instituições e, dentro dos partidos, não houve nenhum avanço. A limitação de representantes mulheres no Congresso é fruto das direções autoritárias, totalizadoras e machistas dos partidos políticos. Mesmo os partidos mais progressistas, mais populares e de esquerda não têm uma política de incorporação de mulheres. Ao contrário, durante os processos eleitorais, não apoiam e estimulam as candidaturas das mulheres, não ajudam a resolver os impasses, as dificuldades financeiras e de infraestrutura que a mulher enfrenta ao disputar o poder nas eleições em geral. Isso nos coloca a necessidade de uma reflexão sobre os dispositivos legais que precisam ser incorporados nas políticas públicas, nas políticas sociais e na reforma política.”



Renato Janine Ribeiro, professor titular de ética e filosofia política na USP

Seria um mito dizer que a mulher é mais acolhedora, negociadora?

“Dilma Rousseff não faz política diferente de como um homem faria. Ela escolheu para sua equipe pessoas que governam com dureza. Não sei se é possível fazer diferente, mas também não acredito que haverá mudanças de fato na maneira de governar somente porque se substituiu um homem por uma mulher, sem que isso represente uma mudança efetiva da postura da mulher na sociedade.
Podemos, então, pensar que se faz necessária uma reforma política mais radical do que apenas constitucional. Mas esse assunto é complexo, pois há um grande risco de esse tipo de discussão acabar criando o mito do feminino e de que a presidenta Dilma não é feminina. Quem seria feminina? Mulheres mais passivas e subservientes? Seria um mito dizer que a mulher é mais acolhedora, negociadora? Há, realmente, diferença entre homens e mulheres?”

Silvia Camurça, socióloga que integra a coordenação da Articulação das Mulheres Brasileiras

Governos dos Estados começam a se sentir constrangidos e passam a aumentar o número de mulheres em suas equipes 

A presença de uma mulher na Presidência da República tem efeito cascata. Muitos governos dos Estados começam a se sentir constrangidos e passam a aumentar o número de mulheres em suas equipes, mesmo que de maneira tímida e insuficiente. No governo de Pernambuco, por exemplo, havia apenas uma secretária e, este ano, são quatro. Ainda é pouco, mas já é um sinal de mudança. Um outro exemplo é a nomeação da delegada Martha Mesquita Rocha para a chefia da Polícia Civil do Rio de Janeiro, que passa a ser a primeira mulher a comandar cerca de 12 mil policiais.
Ficou muito evidente o esforço de Dilma Rousseff para tentar colocar 30% de mulheres à frente de ministérios. Esta proposta foi inviabilizada pelos partidos. Esse ambiente cria uma tensão política, ou seja, os governantes dos Estados vão pensar duas vezes antes de não nomear nenhuma mulher ou apenas uma.”

 

Tatau Godinho, socióloga, é assessora parlamentar na Assembléia Legislativa de São Paulo e integra a Marcha Mundial das Mulheres

Uma mulher à frente de um ministério acumula legitimidade para uma disputa partidária

“Uma mulher no principal cargo do país influencia a maneira como as pessoas passam a ver as mulheres nos espaços de poder e da política; legitima essa participação política. Ao compor um ministério com um número expressivo de mulheres, a presidenta Dilma desafiou e questionou o preconceito e a prática social recorrente de se nomearem só homens para ocupar os cargos políticos mais importantes.
O Parlamento funciona como seleção de quadros para o Executivo e vice-versa. A seleção de quadros para a disputa parlamentar se faz nos movimentos sociais, nas entidades representativas e também no Executivo. Ou seja, a dirigente de uma secretaria de Estado, por exemplo, acumula legitimidade para uma disputa partidária. Portanto, o aumento das mulheres nos cargos executivos torna possível o aumento de mulheres em cargos públicos, mas isso não é automático.”

Fonte

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Sobre nemge

O NEMGE é órgão da Pró-Reitoria de Pesquisa da Universidade de São Paulo. Visa aprofundar, através de pesquisa empírica e estudos teóricos, as articulações entre gênero, etnia e classe social, especialmente no Brasil e na América Latina.
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