Mulheres esperam sua própria revolução

A revolução na Líbia — se ela realmente for concluída, com a queda do ditador Muamar Kadafi — poderá desencadear uma outra revolução, desta vez, silenciosa: a das mulheres. Sobretudo as jovens veem na esperada abertura democrática pós- Kadafi a chance de uma mudança também na forma como as mulheres são vistas na sociedade. Na Líbia, os homens claramente mandam.


É o caso de Aeia Buzgheiba, 18 anos, que passou boa parte de sua vida na Suíça, onde o pai foi exilado político. Ela é parte de uma recém-criada associação de mulheres em Benghazi — segunda maior cidade do país, hoje tomada pelos rebeldes. Chama-se As Filhas de Mukhtar — nome do grande herói dos líbios, Omar al-Mukhtar, que organizou a resistência contra a ocupação pela Itália, que durou quase meio século. Mukhtar foi enforcado pelos italianos em 1931.

— Queremos provar que as mulheres têm o direito a uma Líbia livre e que elas podem até ter um papel na política do país.

Mas Aeia, que quer um dia trabalhar na Bolsa de Valores, sabe que não será fácil. Os líbios — mulheres e homens — passaram os últimos 42 anos sob opressão total. Não tinham o direito de opinar nem de escolher a cor de suas casas ou dos negócios. Nas ruas de Benghazi, todas as portas das lojas são verdes — a cor que o ditador escolheu para marcar a sua era. E muitos edifícios também são verdes. Para as mulheres, além da opressão do regime, há a barreira dos hábitos e as restrições da religião muçulmana. — Vamos ter de nos confrontar com muita gente — prevê Aeia.

Em Benghazi, por exemplo, os restaurantes têm divisões: um lado reservado para homens, outro para mulheres acompanhadas pela família. Em festa de casamento, por exemplo, ninguém se mistura: tem uma festa só para mulheres, e outra só para homens. Aeia conta como se paquera na Líbia: para se aproximar de uma jovem acompanhada da família na rua (mulheres raramente estão sozinhas em lugar público), o rapaz age assim: — Sussurram o número do telefone no nosso ouvido — conta Aeia. Mas nem tudo é branco ou preto. O Conselho Nacional de Transição da Líbia, formado no dia 27 de fevereiro por rebeldes, tem três mulheres superativas. Iman Bugaighis é uma das novas caras da revolução. Ela não é parte do Conselho, mas integra um comitê de Benghazi que reúne advogados e personalidades da oposição, e que está reorganizando esta parte do país reconquistado pelos rebeldes. Há muitas mulheres formadas, com diploma universitário. Iman, com doutorado em Odontologia na Inglaterra, é uma delas. Mãe de uma menina de 10 anos, ela conta o sofrimento das mulheres durante o regime de Kadafi:

— Somos uma sociedade oprimida. Quando o seu filho ou seu marido são presos, e você se encontra em casa com 3 ou 5 filhos privados de escola, sem dinheiro, e tendo de ir de um lugar para o outro sem que ninguém o ajude, este é um problema para as mulheres! Seja lá quem for oprimido, homem ou jovem, este é um problema para as mulheres também.

A irmã de Iman, Salwa el-Doghili, era parte do pequeno grupo de advogados que fez a primeira manifestação contra o regime de Kadafi, na frente do Tribunal de Benghazi. Foi a reação do regime à manifestação que desencadeou a revolta dos jovens. Iman também participou desse protesto.

— Éramos um grupo pequeno, oito ou nove mulheres e 15 homens. Me lembro que chamávamos os homens que nos olhavam dizendo: “Venham, nada vai acontecer a vocês”. E mentimos, porque muito podia acontecer.

As pessoas estavam com medo, mas quando viram mulheres na manifestação, foram se aproximando.

Iman explica que a sociedade líbia é muçulmana e conservadora. Mas, para ela, a situação das mulheres não é tão ruim quanto os ocidentais imaginam: podem estudar, dirigir e viajar (o que é proibido na Arábia Saudita) e as que trabalham “têm salários iguais ao dos homens”. A dentista, que nunca usou o véu islâmico, também defende o direito das mulheres de usarem o véu quando quiserem, sob o argumento de que elas estão “cobrindo a cabeça, mas não suas mentes”.

Mas há outras mulheres, como Najed Abdelsatar, formada em Língua Inglesa, mãe de dois filhos e hoje dona de casa, que experimentaram o outro lado da moeda: — Eu viajo muito, sou formada e educada e quero o melhor para o meu país. Trabalhei numa companhia de petróleo , mas quando assumi o posto de gerente-administrativa, tive que sair, pois homens protestaram dizendo que não queriam ser comandados por uma mulher — conta. Hoje, Najed integra um enorme grupo de mulheres mobilizadas para a revolução: todos os dias, elas cozinham para os combatentes, preparam os cartazes para as manifestações, organizam protestos. Ficam isoladas da confusão das ruas por grades perto do tribunal.

Para as jovens que sonham com maior liberdade na sociedade, o difícil será enfrentar homens como Mohamed Ibrahim, um engenheiro industrial de 26 anos, que acha ótimo mulheres com estudo — mas em casa: — Estou procurando uma mulher para casar que fique só em casa. Para ele, mulher não deve ocupar cargo importante político “porque chora”.

Fonte

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Sobre nemge

O NEMGE é órgão da Pró-Reitoria de Pesquisa da Universidade de São Paulo. Visa aprofundar, através de pesquisa empírica e estudos teóricos, as articulações entre gênero, etnia e classe social, especialmente no Brasil e na América Latina.
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