A condição feminina no Brasil hoje

Pesquisa indica que um quarto das mulheres que tiveram filhos sofreram algum tipo de violência durante o parto. Para especialista, há interesse em que esse modelo agressivo persista, a fim de que a cesária seja “vendida” como alternativa superior.

IZABEL LEÃO

Resultados da pesquisa “Mulheres Brasileiras e Gênero nos Espaços Público e Privado”, realizada pela Fundação Perseu Abramo, aponta melhoras em alguns indicadores sobre a percepção da situação da violência doméstica contra a mulher, saúde reprodutiva e aborto, mídia e sexualidade, mulher e política, feminismo e machismo.

A apresentação dos resultados e o debate fizeram parte do evento de comemoração do Dia Internacional da Mulher, realizado no dia 29 de março, na Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP. No evento, foram comparados os dados agora divulgados com os resultados de uma pesquisa realizada em 2001. Segundo a professora Carmem Simone Grilo Dinis, da Faculdade de Saúde Pública, a nova pesquisa trouxe como inovação informações muito importantes para o papel da saúde pública no País, principalmente sobre a violência contra as mulheres nas instituições de saúde.

De acordo com a pesquisa, um quarto das mulheres brasileiras que tiveram filhos em algum momento passou por abuso verbal ou maus-tratos na hora do parto, teve exame de toque doloroso, falta de atendimento para aliviar a dor ou manifestações mais explícitas de violência, como amarrar a mulher, por exemplo. “O modelo de saúde para parturientes é muito agressivo e violento e a permanência desse modelo é instrumental para vender cesária”, explica Carmem. “Há interesse em que o modelo continue violento, com muita intervenção, com as mulheres imobilizadas e drogadas para provocar dores, cortando-as desnecessariamente. Tudo isso para vender o procedimento da cesária como alternativa superior. Defendemos uma assistência fisiológica, suave, baseada em evidência e nos direitos das mulheres.”

Para Carmen, a questão de fundo é a formação das equipes médicas, como também a falta de preparo das mulheres, sugerindo um pré-natal que vá além do monitoramento e saúde do feto, preparando-as para o momento do parto.

Os dados apresentados pelo coordenador da pesquisa, Gustavo Venturi, professor do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, mostram que de um modo geral as mulheres estão mais satisfeitas comsua condição feminina do que se encontravam há dez anos. Mesmo nos casos em que a situação apresentava-se muito negativa, até mesmo dramática, no caso da violência de gênero, a pesquisa mostra uma leve tendência de melhora. “Passamos de oito mulheres espancadas a cada dois minutos para cinco mulheres espancadas a cada dois minutos.”

Violência doméstica – A médica e professora Marcia Couto, da Faculdade de Medicina da USP, convidada para falar sobre “Masculinidade, Gênero e Violência”, afirma que a pesquisa também é inovadora ao incluir na mostra de 2.365 mulheres entrevistadas também 1.181 homens com mais de 15 anos de idade, de 25 unidades da federação, cobrindo as áreas urbanas e rurais de todas as macrorregiões do País, que se manifestaram sobre o fenômeno da violência. “Estudos internacionais e nacionais, na maioria das vezes, trazem estimativas de violência contra a mulher sempre do ponto de vista feminino. Esta pesquisa buscou mostrar a visão masculina sobre a questão da violência e também dos outros temas analisados”, avalia.

Marcia explica que 8% dos entrevistados homens afirmaram que bateram em alguma mulher, esposa ou namorada, em algum momento da vida. No entanto, a pesquisadora ressalta que quando esses entrevistados se remetem a outros homens do seu convívio, seja familiar, amigo, conhecido ou parente, esse porcentual aumenta. “Ao falarem que conhecem algum parente homem que bateu numa mulher, o porcentual aumenta para 25% de cada quatro homens. Quando se referem à ideia de algum amigo que cometeu violência contra a mulher, esse porcentual aumenta para 48%.”

Para a pesquisadora, essa talvez seja uma forte revelação de que muitos homens, quando falam de si mesmos, têm dificuldades em revelar sua atitude para a pesquisa, mas, quando é estimulado a pensar sobre outros homens do seu convívio, consegue ter uma visão ampla considerável.

Outro dado revelador apontado por Marcia Couto é que, na opinião de 91% dos homens, bater em mulher é errado em qualquer situação. “Essa dimensão da violência traz uma questão interessante que se sobrepõe ao discurso do politicamente correto, do que é moralmente ou socialmente aceito pela não-violência.”

A médica ainda mostra que a construção da masculinidade, assentada numa tentativa de naturalização do comportamento do homem – visto como naturalmente instintivo e impulsivo –, foi uma fatalidade para a sociedade brasileira. Muitos homens se justificam afirmando que a mulher provocou e por isso ele “perdeu a cabeça” ou não pôde “se controlar”. “Afirmações como essas geram uma ideia de naturalização desse instinto masculino, o que, de certa forma, reproduz o fato de a masculinidade estar associada à natureza do homem e a feminilidade, associada à cultura – aquela que é contida, que pensa antes de fazer e que não se rege por instintos.”

Mais um dado revelador apontado por Márcia é que o Brasil hoje tem uma política pública que trata da violência dos homens contra a mulher regida pela lei Maria da Penha, sancionada em 2006, e isso ajudou os homens a terem um entendimento mais claro com relação à violência. “Oitenta por cento dos homens entrevistados já ouviram falar e têm conhecimento da lei. Isso demonstra como as políticas públicas nessa área do combate à violência devem ser ampliadas, como também deve ser estimulado o amplo debate, para termos o enfrentamento da questão em termos legais”, ressalta a médica. “Antes, a violência ficava restrita ao domínio do privado e resolvido nas próprias relações ou, no máximo, se expandia para a família. A regulação social sobre a questão é de fato muito importante e a pesquisa aponta o conhecimento tanto de homens quanto de mulheres das propostas da lei.”

Quanto à questão sobre se sofreu alguma violência física ou ameaça à integridade física, 12% das mulheres responderam afirmativamente e a distribuição dos dados é paritária na faixa etária entre 25 e 49 anos.

Também é paritária nos itens de escolaridade. Não há desníveis tão grandes que justifiquem o entendimento de que a violência é de fato muito mais disseminada para as pessoas de baixa escolaridade ou baixo rendimento. “Esse é um fenômeno social que permeia todos os substratos econômicos. Podemos dizer ser um fenômeno democrático, infelizmente”, reflete Márcia.

Aborto e mídia – Sobre o tema do aborto, foi revelado que uma em cada quatro mulheres tem na família alguém que já cometeu aborto e metade, cerca de 48%, conhece quem já tenha feito esse procedimento.

Venturi explica que apenas 4% dos entrevistados disseram ter provocado aborto alguma vez na vida. Para ele, já era de se esperar que muitas delas não revelassem o fato por ser muito delicado e um ato considerado ilícito, além de moralmente condenável pela maioria da sociedade.

Na pesquisa, 50% das mulheres disseram conhecer pessoalmente alguma mulher que já cometeu aborto e uma em cada cinco (21%) assume ter na família alguma mulher que provocou aborto, com destaque para irmãs (5%) e primas (5%).

Entre os homens, também 4% assumiram ter engravidado parceiras que abortaram. Um em cada três (33%) afirma que “conhece pessoalmente” e 10% assumem ter na família alguma mulher que provocou um aborto.

As principais razões para o aborto alegadas pelas entrevistadas foram a falta de condições econômicas para ter um (ou mais de um) filho (41%) e a falta de uma relação estável ou de apoio do homem de quem engravidaram (20%).

Segundo Venturi, de 2001 a 2010 dobrou de 36% para 72% a taxa de mulheres que sabem que o aborto legal no País “depende do caso” – o conhecimento da legalidade do aborto decorrente de estupro passou de 25% para 50%. Apenas 13% acreditam que o aborto não é permitido em nenhum caso (antes eram 53%). A maioria das mulheres e dos homens, 59% cada, avalia que as igrejas estão certas ao tentarem controlar as leis sobre o aborto.

Em relação à mídia, Venturi mostra que há um claro descontentamento das mulheres sobre a maneira como são retratadas, seja nos programas ou na publicidade. O pesquisador explica que a maioria é favorável à existência de um controle desse conteúdo, ainda que a discussão esteja em aberto para definir qual seria a melhor forma para esse controle, dividindo-se entre as que acham que deve haver um autocontrole por parte das agências e das emissoras e as que acham que deve haver uma intervenção do governo, uma espécie de censura. Já uma parcela minoritária acredita que deve existir um controle social com representação da sociedade civil. “Somando os três grupos, independente da modalidade, a maioria afirma haver um descompassado na forma como a mulher é retratada e gostaria de algum tipo de controle”, ressalta o pesquisador. “Podemos afirmar que a imagem feminina na mídia é construída pelo próprio homem, prevalecendo uma visão masculina das mulheres tanto na publicidade quanto na programação geral.”

Machismo e feminismo – Sobre a satisfação das mulheres com relação ao próprio corpo, foi apontado enfaticamente existir uma ditadura do modelo de beleza, que não condiz com a realidade da maioria das pessoas, e isso pesa muito para as mulheres, que têmessa cobrança muito mais forte.

Os resultados sobre feminismo e machismo trouxeram surpresas. Venturi afirma que um terço das mulheres se considera feminista. Isso depois de ser feita a crítica, excluindo algumas que confundiram feminista com feminina. Tirando 9% que fizeram essa confusão, ainda assim 31% delas se consideram feministas e souberam dar conteúdo razoável sobre o que é feminismo – autonomia das mulheres, igualdade em relação aos homens. Ao mesmo tempo, um quarto dos homens afirma ser machista e assume esse machismo. É consensual a percepção de que a sociedade é machista – 90% dos homens entrevistados.

Quanto à divisão do trabalho e tempo livre, prevalecem ainda jornadas muito maiores para as mulheres, que têm entre suas obrigações o trabalho de casa e o cuidado com os filhos, idosos ou doentes. Ficaram estáveis, nos últimos nove anos, os dados sobre as mulheres que gostariam de cuidar da construção de sua autonomia e independência em detrimento do cuidado da família, casa e marido, contra um terço daquelas que preferem o contrário.

Segundo Venturi, a hipótese é que isso tenha a ver com o custo dessa independência, na medida em que a contrapartida masculina na divisão do trabalho doméstico e as discriminações objetivas no mercado de trabalho fazem com que a recompensa da mulher ao buscar emprego fora de casa seja inferior à do homem, levando-a a preferir buscar sua autonomia.

Quanto ao fato de a mulher ocupar cargos políticos, o pesquisador mostra que aumentou a confiança delas na capacidade de ocupar cargos de governo, em qualquer âmbito. Os dados sobre o aumento do interesse das mulheres por política e o conhecimento da importância da política em suas vidas, quando cruzados com a intenção de votos na época da última eleição, mostram que uma de cada cinco mulheres declarou, espontaneamente, que iria votar na atual presidente, por ela ser mulher, contra um de cada 20 homens.

Dores e alegrias de ser homem e ser mulher

Entre “as melhores coisas de ser mulher” foi destacada, na pesquisa divulgada no dia 29 de março na Faculdade de Saúde Pública da USP, a capacidade ou a possibilidade de concepção (50%) e atributos socialmente construídos, considerando-se mais batalhadoras e guerreiras (23%) para enfrentarem as adversidades da discriminação de gênero.

Entre as “piores coisas de ser mulher”, também citadas espontaneamente, as entrevistas se dividem entre o espaço público – com destaque para subordinação aos homens, decorrente do machismo (19%), e para as desigualdades de gênero no mercado de trabalho (16%) – e o espaço privado, com destaque para a violência de gênero (14%), a falta de reconhecimento ou de apoio para a criação de filhos (12%) e decorrências biológicas da condição feminina, como menstruar e ter cólicas (12%).

Entre “as melhores coisas de ser homem”, os brasileiros destacam hoje atributos masculinos, sobretudo biológicos (37%), como não engravidar, não parir, não menstruar, ter maior liberdade e independência do que as mulheres (33%) e mais oportunidades no mercado de trabalho (31%).

Entre “as piores coisas de ser homem”, eles destacam o peso do papel tradicional de gênero, de ser provedor ou cobrado por tal (26%). Mas para 37% não há nada ruim em ser homem.

Fonte

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Sobre nemge

O NEMGE é órgão da Pró-Reitoria de Pesquisa da Universidade de São Paulo. Visa aprofundar, através de pesquisa empírica e estudos teóricos, as articulações entre gênero, etnia e classe social, especialmente no Brasil e na América Latina.
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