Violência contra mulher expõe conflito entre nova e velha Índia

Os jovens amantes se encontraram em um lugar isolado próximo a um milharal, na periferia de Ghaziabad, bairro da extensa Nova Délhi, onde a eterna Índia de campos de mostarda e carros de boi entra em conflito com as torres de apartamentos que sobem freneticamente para abrigar a classe média emergente. Eles buscavam tranquilidade, mas em vez disso encontraram a violência da antiga contra a nova Índia.

Lá, segundo a polícia, cinco jovens bêbados de uma aldeia de agricultores da região atacaram o casal no mês passado, batendo no homem e violentando continuamente a jovem mulher. Foi o último de uma série de brutais ataques sexuais e estupros a mulheres na próspera capital indiana e seus extensos subúrbios.

 

Em cada caso, houve um confronto explosivo entre a cidade que se moderniza rapidamente e a cultura conservadora das aldeias, que está cada vez mais invadindo a capital. As vítimas são quase sempre jovens, educadas, trabalhadoras, que gozam de uma liberdade que era desconhecida há uma década. Os autores dos ataques geralmente abandonaram a escola no ensino médio nas aldeias vizinhas, onde é comum ver as mulheres que trabalham fora de casa como desprovidas de virtude e, portanto, merecedoras do assédio e até mesmo do estupro.

“Se essas garotas passeiam livremente, esses jovens cometerão seus erros”, disse a mãe de dois dos acusados de estupro em uma entrevista, recusando-se a dar seu nome.

Essa é uma atitude profundamente enraizada que fez de Nova Délhi a grande cidade mais perigosa para as mulheres na Índia. O índice de estupros é quase três vezes maior que em Mumbai e dez vezes maior que em Calcutá, de acordo com dados do governo. Um estudo concluído no ano passado pelas agências governamentais e vários grupos defensores dos direitos das mulheres constatou que 80% têm enfrentado assédio verbal na cidade e que os homens abusaram fisicamente de cerca de um terço das mulheres.

Quase metade das entrevistadas relatou ter sido vítimas de intimidação, uma triste estatística ilustrada na terça-feira quando um homem atirou em uma aluna da Universidade de Délhi em plena luz do dia, após persegui-la.

Segundo a polícia, os agressores muitas vezes não veem seus atos como crimes e não esperam que as mulheres relatem os ataques. “Eles não têm dúvida de que sairão ilesos”, disse H. G. S. Dhaliwal, vice-comissário de polícia em Nova Délhi, que tem investigado vários desses casos.

Espera-se que a economia da Índia cresça 9% este ano. O grande “boom” econômico trouxe uma mudança social radical no país: o número de mulheres na força de trabalho quase dobrou nos últimos 15 anos.

Os policiais dizem que a taxa de crimes violentos contra as mulheres diminuiu nos últimos quatro anos em Délhi, devido a campanhas de monitorização mais agressivas, além de medidas como vagões de trem só para mulheres e leis que obrigam as empresas a oferecer transporte para funcionárias que trabalham no período noturno.

No entanto, a grande maioria dos crimes contra as mulheres não são relatados, segundo a polícia e mulheres ativistas. O confronto entre a cidade cada vez mais cosmopolita e os seus arredores tradicionais está piorando, dizem eles.

“Há muita tensão entre as pessoas com uma mentalidade tradicional e a cidade que está mudando tão rapidamente”, disse Ranjana Kumari, uma das principais defensoras dos direitos das mulheres. “Os homens não estão acostumados a ver tantas mulheres ocuparem espaços públicos”.

E em poucos lugares o conflito é tão evidente como em Ghaziabad, localizada no extremo leste de Nova Délhi, a megacidade que está se espalhando. O terreno onde o jovem casal se encontrou representa uma linha invisível mas indelével.

Não há dúvida sobre a qual lado o casal pertence. O jovem é engenheiro em uma empresa de alta tecnologia com um salário bom o suficiente para permitir que tenha uma moto e um laptop.

Seus agressores vivem na aldeia de Raispur, a menos de um quilômetro do local onde a menina dividia um apartamento com seus pais, mas pertencem a uma Índia completamente diferente. Nenhum deles conseguiu se formar no colegial. As ruas estreitas da aldeia adormecem ao cheiro de estrume de vaca. Cada casa, ao que parece, tem algum animal de criação, muitos dos quais vivem em ambientes fechados que fazem parte da moradia.

Ao contrário do crescente número de mulheres profissionais na cidade, aqueles que vivem em Raispur cobrem o rosto com lenços na presença de estranhos e raramente andam para fora da aldeia.

Seema Chowdhury, 20, a irmã de um dos acusados, se formou no colegial. No entanto, quando ela tentou se matricular na faculdade para ser professora, seus irmãos se recusaram a permitir isso. As jovens mulheres que se afastam da vila enfrentam muitos perigos, eles argumentaram. “Eu queria fazer algo da minha vida”, disse ela. “Mas eles acharam que não era uma boa idéia”.

Em comparação, a garota que eles estupraram tinha uma liberdade inimaginável. Ela trabalhava como contadora em uma fábrica de roupas e tinha seu próprio telefone celular e e-mail. Ela mantinha um caso secreto com um jovem que conheceu online, embora seus pais tenham arranjado seu casamento com outra pessoa, segundo a polícia.

Vijay Kumar Singh, o policial sênior que investigou o estupro, disse que no dia 5 de fevereiro um jovem foi à delegacia para relatar o furto de seu telefone celular e laptop. Quando o rapaz disse que tinha sido roubado em um terreno isolado na periferia, Singh suspeitou: era um lugar estranho para um assalto.

Pressionado para dar mais detalhes, o jovem admitiu que havia levado sua namorada para um lugar isolado para estar sozinho com ela e que cinco homens bateram neles e a estupraram. Com base na descrição, a polícia rapidamente identificou um dos agressores como um dos bandidos da cidade, Tony, que já havia tido conflitos com a polícia.

Quando foram procurar por Tony, que usa apenas um nome, ele ainda estava bêbado, disse Singh. “Foi tão descarado que relatou tudo, sem remorsos”, disse ele.

Mas Tony negou ter estuprado a mulher, de acordo com o relatório policial. Aparentemente, Tony presumiu que a vítima de estupro não iria se prestar queixa por causa da grande vergonha.

Singh temia que ele estivesse certo. “Percebi desde cedo que a menina não iria nos ajudar”, disse ele.

A polícia deteve cinco jovens e os acusou de estupro e roubo. Repetidamente tentou fazer a jovem reconhecê-los. O chefe da polícia municipal lhe enviou um e-mail pedindo que colaborasse e se ofereceu para proteger sua identidade. Segundo a polícia, ela enviou uma resposta lacônica por e-mail: “A polícia não pode restaurar a minha honra”.

A polícia falou com seu pai e pediu que a convencesse a cooperar, disse Raghubir Lal, o chefe de polícia de Ghaziabad. No entanto, na manhã seguinte, o irmão dela a encontrou tentando se enforcar, afirmou Lal. A polícia decidiu parar de pressioná-la.

Singh, o oficial que primeiro investigou o estupro, disse que sem prova material ou testemunho da vítima, não teria como condená-los.

A polícia e os ativistas defensores das mulheres dizem que é fundamental garantir as condenações para mudar as atitudes que toleram a violência sexual.

Em novembro, um incidente semelhante em Nova Délhi teve um final diferente. Homens em uma caminhonete sequestraram e estupraram continuamente uma jovem e a deixaram em um hospital. Ela estava disposta a dar queixa, disse a polícia.

Os investigadores encontraram e prenderam cinco homens. A evidência de DNA comprovou seu envolvimento, segundo a polícia, o que praticamente garantiu as condenações. Dhaliwal, o policial de Nova Délhi, estimou que apenas um em cada 10 estupros são relatados na região.

“Mas essa moça era muito valente”, disse Dhaliwal. “É algo muito difícil no contexto indiano, mas você tem que denunciá-lo”.

Fonte

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Sobre nemge

O NEMGE é órgão da Pró-Reitoria de Pesquisa da Universidade de São Paulo. Visa aprofundar, através de pesquisa empírica e estudos teóricos, as articulações entre gênero, etnia e classe social, especialmente no Brasil e na América Latina.
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