Mulheres afegãs são as maiores vítimas da guerra em zona tribal

Desde 1979, são cerca de 1,5 milhão de viúvas, sem direito a herança, que dependem da família ou de um novo casamento

Como muitos afegãos das áreas tribais da etnia pashtun, Shaista não tem sobrenome nem sabe dizer a idade. O lugar onde nasceu, um vilarejo de Kandahar, na fronteira entre Afeganistão e Paquistão, determinou seu destino. Reduto do Taleban, a região foi a primeira dominada pelo grupo, em 1996, e seria mais tarde o lugar onde Osama bin Laden receberia proteção do líder taleban, o mulá Omar.

Quando a coalizão comandada pelos EUA iniciou a caçada ao terrorista, ali foram travados os mais violentos conflitos. Foi em um deles que o marido de Shaista foi morto. Depois de um dia de trabalho, como médico-assistente em uma clínica local, ele voltava para casa quando um ônibus explodiu na sua frente.

Nos dez anos da caçada americana a Bin Laden, milhares de afegãos perderam a vida no fogo cruzado entre a coalizão e o Taleban, que tem forte ligação com a Al-Qaeda. Diferentes fontes falam em cerca de 1,5 milhão de mulheres que perderam os maridos nos mais de 30 anos de conflitos no país, desde a invasão soviética, em 1979. A maioria tem filhos e 94% são analfabetas. Apenas 50 mil viúvas vivem na capital Cabul. As demais estão espalhadas pelo país.

“A vida tornou-se muito difícil nesta região”, diz Shaista. “O Taleban achava que meu marido era espião, porque ele tinha contato com estrangeiros no hospital onde trabalhava. Eles o prenderam muitas vezes. Já os estrangeiros acham que todos somos do Taleban. Estamos no meio de bombardeios militares, de um lado, e ataques suicidas de outro.”

Sua vida sofreu uma reviravolta com a morte do marido. No Afeganistão, as mulheres não têm direito a herança e passam a depender da ajuda de outros homens da família ou de um novo marido.

A história trágica ficou ainda mais dramática por causa de outro efeito da guerra no Afeganistão. Shaista foi obrigada a casar novamente com o cunhado, que era viciado em ópio, droga que tem como matéria-prima a papoula, cuja exportação financia a insurgência no Afeganistão.

Produção de ópio. Desde o início da guerra, o país enfrenta uma escalada da produção, sendo responsável por 77% do ópio produzido no mundo, com 1,7 milhões de agricultores afegãos trabalhando nas plantações. O vício do cunhado era motivo de brigas. “Eu sabia de tudo muito antes, de todos os crimes que ele havia cometido para comprar a droga. Meu medo era que ele vendesse a mim e a meu filho. Então, uma noite, fugi.”

Shaista passou nove dias nas montanhas. Segurava o filho nos braços com tanta força que chegou a abrir feridas em sua pele. Acabou em um hospital, onde passou dois meses. Há pouco mais de um ano, vive escondida em um abrigo para viúvas mantido pela organização Crescente Vermelho, em Cabul.

Se um dos oito irmãos mais velhos a encontrar, a matará por abandonar o segundo marido e desonrar a família. No prédio onde ela mora vivem 54 viúvas com histórias parecidas. O número das que procuram abrigo aumenta junto com os conflitos.

“Só no mês passado, 30 mulheres vieram bater em nossa porta”, diz o chefe do abrigo, Shawaly Wadat. “De cada dez que chegam aqui, ficamos com uma. Não temos mais espaço.”

Fonte

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Sobre nemge

O NEMGE é órgão da Pró-Reitoria de Pesquisa da Universidade de São Paulo. Visa aprofundar, através de pesquisa empírica e estudos teóricos, as articulações entre gênero, etnia e classe social, especialmente no Brasil e na América Latina.
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